sábado, 17 de julho de 2010

Debaixo do tapete.



E todas as pessoas saem de minha vida sem um aviso prévio, elas simplesmente se viram e vão embora, sem que eu consiga olhar e impedir, sem que eu consiga gritar e pedir para que não me deixe, sem que eu me prepare. Quando me dou por mim, já estou vencida, já estou ali - sozinha - tentando recolher os últimos vestígios de cada uma, talvez até me desfazendo dos mesmos.
Eu tive que acordar um dia e encarar a minha realidade, eu não sabia como dizer para mim mesma que você não estaria mais ali, não sabia como explicar que agora eu era apenas eu, não teria mais a sua presença mais tarde, não teria você na mesa para sentar e conversar comigo sobre seu dia, ou até para reclamar dos sapatos que eu ponho debaixo da nossa cama. Eu ainda sinto sua presença por essa casa, eu ainda sinto o peso do seu corpo sentado do outro lado do sofá me olhando com mil palavras, e nenhum som.
Ficou tudo ali, eu demorei a remexer em nossas memórias, tão profundas, tão pequenas. O rádio continuou executando a nossa música favorita, sua xícara continuou em cima da mesa, seus livros continuaram na estante, a tv não mudou de canal e as horas nunca mais passaram. Todas as nossas coisas esperaram você voltar - menos eu - sempre soube que sua ida não teria volta, eu sempre soube que seria assim.
Um dia eu acordei, não o despertar de um dia pro outro, como nós fazemos todos os dias, eu acordei para o tempo, para a vida, acordei para mim. Me vi uma pessoa tão diferente no espelho, não aquela que você conheceu, eu estava entorpecida, eu estava fora do meu padrão, mesmo que ele fosse incomum, eu não podia sentir meu sangue pulsar ou meus pés tocarem o chão. Naquele dia eu decidi te deixar para trás, decidi queimar seus vestígios e expulsar sua falsa presença daquela sala, eu remexi em seus livros, lavei sua xícara e desliguei a tv... Eu fiz o ponteiro girar, fiz as horas passarem e eu consegui sentir isso e aproveitar cada uma. Porém não fiz isso pra te esquecer, você tratou de fazer isso antes! Eu apenas finalizei seu trabalho, eu não desatei o nó, eu o apertei, eu decretei o fim. Eu apenas continuei, como devia ter continuado desde o primeiro instante da sua ausência, você se apressou em se refazer enquanto eu remoía as nossas memórias. Isso não dói mais. Eu continuei, eu apaguei. Não por ódio, nunca... Sim por amor próprio, pois eu precisava de mim, não de você. Então, continuamos assim, você fica aí e eu aqui. Quem sabe outro dia me mande notícias sobre sua vida, me fale sobre suas manias. São as mesmas? Eu te escrevo a qualquer dia do mês, quando sentir necessidade. Minhas cartas estão jogadas em uma gaveta no fundo do armário da cozinha. As suas estão por aí, as suas estão em minha mente, assim como você sempre estará.


Terminou assim, sem meias palavras, sensações se expandiram e formaram o que sou. Até mais.

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