segunda-feira, 8 de agosto de 2011

1954





Daqui não vejo o tempo passar, daqui não sinto o gosto doce, não sinto o aroma da manhã e não toco as suaves pétalas das flores. Um lugar fechado, a prisão que eu vivo, tão escura e fria. Esqueci como é o mundo lá fora, primaveras não existem, passei cinquenta invernos aqui. Não vejo a luz do sol, a morte flui dessas paredes, a tristeza exala de mim, a solidão alugou meus olhos como lar. Vejo os ponteiros girarem e a cada segundo cortam a minha carne, dilaceram, mas eu não sinto minhas chagas, não vejo cicatrizes. Minhas feridas tornaram parte de quem sou. Aqui não se aprende a viver, e sim a morrer. Meus fragmentos de vida foram exterminados, partículas de luz se apagaram, esqueci como é que se vive, desaprendi a reinventar meus dias.
Não sei o que faço aqui, não sei como cheguei, ninguém me trouxe, ninguém me mostrou como, ninguém partiu. Não sei o caminho de volta, não sei como regredir, apaguei as pistas e tranquei meus cadeados. Se eu gritar? Ninguém me escuta. Estou muito longe para ser ouvida, todos vivem lá fora, eu sou a sombra em suas vidas. Cinquenta anos jogados fora e eu ainda não aprendi a morrer, me conformo todos os dias, mas a lição nunca acaba. Neste lugar esquecido, sombrio e triste. Sou apenas mais uma vítima. não há solução, entradas ou saídas, não há calendários, não há dias marcados. Aqui nada é nada. Nada é tudo.

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